coisadeacender
imagens, escritos e etc... "o ver é equívoco, o olhar é invisível."
12 de maio de 2012
30 de abril de 2012
Toda ilha é uma imagem à distância.
Jogar fora as memórias esquecidas no fundo de uma gaveta é se livrar de um passado que talvez nunca existiu ou apenas uma forma de desocupar o espaço da gaveta, ou pasta, para que novas memórias sejam esquecidas nela? Retemos imagens de guerra, pôsteres de ídolos, paisagens intocadas em fundos de tela, estampas de camisetas. Posamos em todos os lugares que visitamos: shows, restaurantes, livrarias, shopping centers, praias e monumentos, muitas vezes sem ao menos termos estado espiritualmente por lá. Depois postamos e compartilhamos em redes sociais para que alguém enquanto navega, mire tal ilha ao longe, quase de forma invisível, como miragens que se dissolvem quando se tenta chegar mais perto, e passe batido pela ilha, que permanecerá intocável até que algo dentro dela se faça gritar aos olhos de algum navegante. Mas será este o caso do navegante sempre ter estado a procura daquela ilha?
Jogar fora as memórias esquecidas no fundo de uma gaveta é se livrar de um passado que talvez nunca existiu ou apenas uma forma de desocupar o espaço da gaveta, ou pasta, para que novas memórias sejam esquecidas nela? Retemos imagens de guerra, pôsteres de ídolos, paisagens intocadas em fundos de tela, estampas de camisetas. Posamos em todos os lugares que visitamos: shows, restaurantes, livrarias, shopping centers, praias e monumentos, muitas vezes sem ao menos termos estado espiritualmente por lá. Depois postamos e compartilhamos em redes sociais para que alguém enquanto navega, mire tal ilha ao longe, quase de forma invisível, como miragens que se dissolvem quando se tenta chegar mais perto, e passe batido pela ilha, que permanecerá intocável até que algo dentro dela se faça gritar aos olhos de algum navegante. Mas será este o caso do navegante sempre ter estado a procura daquela ilha?
2 de abril de 2012
Tempo, as imagens sabem esperar?
"As imagens atuais têm tempo? Teriam elas história, a possibilidade de evidenciar passado? Seriam capazes de durar mais, de não passar tão depressa? Nada parece mais impertinente do que pedir a essas imagens aceleradas que fiquem... As transformações mais radicais na nossa percepção estão ligadas ao aumento da velocidade da vida contemporânea, ao aceleramento dos deslocamentos cotidianos, à rapidez com que o nosso olhar desfila sobre as coisas... A pressa, a falta de tempo, priva as imagens de toda particularidade e consistência... Em vez de acelerar cada vez mais, diferenciar: conservar várias temporalidades no mesmo tempo, simultaneidade de passado e presente, presente e futuro. Introduzir um intervalo - uma diferença - no ritmo das coisas, provocando uma sobreposição de andamentos. Retardar o fluxo, criando um espaço vazio no qual outra coisa pode se instalar. Um mundo de lentidão, que se dá tempo. Devagar: sem destinação precisa, desacelerado. É o que permite que o passado, o tempo perdido, seja presente, como uma alusão como uma brisa que sopra suavemente... É aqui e agora. Mas é possível - no universo da comunicação instantânea - um lugar que não esteja preso ao que sucede? Ali ainda pode acontecer alguma coisa, a presença?
Muito do mistério da fotografia deve-se a essa imipressão de atemporalidade. O segredo dos retratos antigos, a sua capacidade de fazer aflorar - poderíamos dizer lentamente - a expressão das pessoas, residia na exigência de uma longa exposição. Eles davam tempo para as feições ganharem seus verdadeiros contornos. O oposto do instantâneo jornalístico, que parte da fama - o rosto já conhecido - do retratado.
A pressa da vida moderna, o vórtice vertiginoso dos eventos históricos, geram imagens condicionadas pela aceleração. Essas imagens não têm mais tempo. A guerra e o crime instauram o domínio do instantâneo, das imagens de ação... Imagens feitas no calor da hora, no ritmo dos acontecimentos. Imagens movidas a velocidade.
"O que você fotografaria, se o mundo estivesse em paz? "... O oposto do repórter - e do fotografo de guerra - é aquele que vagueia, a câmera na mão, sem direção nem horário, pelas ruas. Ou aquele que, como um paisagista, contempla o panorama do mundo. Ele tem calma. Suas fotos têm uma coisa em comum: tempo. Elas sabem esperar. Deixar as coisas se configurarem ante nossos olhos.
Se o mundo estivesse em paz - se pudéssemos olhar para ele com vagar - as imagens teriam tempo. Não por acaso praticamente todas as fotos feitas a partir dessa questão são retratos e paisagens. Essa atitude paciente só poderia nos conduzir aos gêneros mais tradicionais da pintura, aos seus temas básicos. O muito pequeno e o muito grande. Ambos sugerem grandeza e finitude. Tudo aquilo que as imagens apressadas não são capazes de apreender. Aquilo que em geral - apesar de estar sempre ali, na nossa frente - não conseguimos ver.
As cenas - feitas à margem do ritmo acelerado das informações e dos acontecimentos - consistem, em geral, justamente nisso: imagens do invisível. Todas mostram rostos, gestos e vistas de lugares. A percepção do tempo, de uma outra durée, resgata gêneros tidos como anacrônicos e superados na arte atual, o retrato e o paisagismo.
Estamos acostumados a só ver aquilo que é dinâmico, que se agita ante nossos olhos, que acontece... E quando nada, aparentemente, está acontecendo? O vento soprando nas árvores ou uma mulher que levanta a mão, com graça, como se fosse soltar um balão. Aí não se vê nada. Mas, de fato, tudo está acontecendo. Essas cenas são delicadas demais ou grandiosas demais para ficarem impressas na retina habituada só ao que é passageiro. São cenas praticamente imperceptíveis a expressão num olhar, um jeito de andar ou uma luz particular incidindo sobre as montanhas."
Nelson Brissac Peixoto, trechos do livro Paisagens Urbanas.
Muito do mistério da fotografia deve-se a essa imipressão de atemporalidade. O segredo dos retratos antigos, a sua capacidade de fazer aflorar - poderíamos dizer lentamente - a expressão das pessoas, residia na exigência de uma longa exposição. Eles davam tempo para as feições ganharem seus verdadeiros contornos. O oposto do instantâneo jornalístico, que parte da fama - o rosto já conhecido - do retratado.
A pressa da vida moderna, o vórtice vertiginoso dos eventos históricos, geram imagens condicionadas pela aceleração. Essas imagens não têm mais tempo. A guerra e o crime instauram o domínio do instantâneo, das imagens de ação... Imagens feitas no calor da hora, no ritmo dos acontecimentos. Imagens movidas a velocidade.
"O que você fotografaria, se o mundo estivesse em paz? "... O oposto do repórter - e do fotografo de guerra - é aquele que vagueia, a câmera na mão, sem direção nem horário, pelas ruas. Ou aquele que, como um paisagista, contempla o panorama do mundo. Ele tem calma. Suas fotos têm uma coisa em comum: tempo. Elas sabem esperar. Deixar as coisas se configurarem ante nossos olhos.
Se o mundo estivesse em paz - se pudéssemos olhar para ele com vagar - as imagens teriam tempo. Não por acaso praticamente todas as fotos feitas a partir dessa questão são retratos e paisagens. Essa atitude paciente só poderia nos conduzir aos gêneros mais tradicionais da pintura, aos seus temas básicos. O muito pequeno e o muito grande. Ambos sugerem grandeza e finitude. Tudo aquilo que as imagens apressadas não são capazes de apreender. Aquilo que em geral - apesar de estar sempre ali, na nossa frente - não conseguimos ver.
As cenas - feitas à margem do ritmo acelerado das informações e dos acontecimentos - consistem, em geral, justamente nisso: imagens do invisível. Todas mostram rostos, gestos e vistas de lugares. A percepção do tempo, de uma outra durée, resgata gêneros tidos como anacrônicos e superados na arte atual, o retrato e o paisagismo.
Estamos acostumados a só ver aquilo que é dinâmico, que se agita ante nossos olhos, que acontece... E quando nada, aparentemente, está acontecendo? O vento soprando nas árvores ou uma mulher que levanta a mão, com graça, como se fosse soltar um balão. Aí não se vê nada. Mas, de fato, tudo está acontecendo. Essas cenas são delicadas demais ou grandiosas demais para ficarem impressas na retina habituada só ao que é passageiro. São cenas praticamente imperceptíveis a expressão num olhar, um jeito de andar ou uma luz particular incidindo sobre as montanhas."
Nelson Brissac Peixoto, trechos do livro Paisagens Urbanas.
31 de março de 2012
o rastro do dinossauro
pés descalços, sentindo a terra remoída pela chuva e pela máquina. O rastro, tal como um carimbo das suas enormes patas mecânicas, percorre e corre.
ver para crer ou crer para ver?
o ver cada vez mais se torna invisível. Toneladas de imagens são lançadas diariamente pelo virtual afora, e parece que o tempo presente não é suficiente para absorver, nem para ver. Selecionar o que vemos passa pelo crivo radical de outrem: os formadores de opinião, os pensadores do mundo contemporânea, os detentores da pequena e ilusória faixa de eleição, os críticos vorazes, os programadores sagazes, e ainda existe a tecnologia que é violenta com os seres digitais, quisá os analógicos... alguns continuam a olhar para dentro, mesmo quando a direção aponta para fora. As referências enriquecem o olhar, a descoberta valoriza e renova.
30 de março de 2012
o piquenique, a ilha do dia anterior
toda fotografia é uma ilha. Toda ilha é uma imagem à distância. Uma ilha no oceano do tempo - presente.
29 de março de 2012
contar um história
talvez não conte uma história com começo, meio e fim, ou quem sabe, talvez apenas cite pequenos trechos dessa tal história. Mas todas estas imagens trazem um pequeno gesto preso à ilha do dia anterior. "Breve história de um gesto. Uma jovem acena, do portal do seu jardim, para o rapaz que acaba de deixá-la em casa. Um instante em que, sem pensar, ela vira e levanta o braço, com leveza e graça, como se lançasse para o céu um balão colorido. Esse instate é maravilhoso. Todo o encanto da situação revela-se numa fração de segundo."
abuela, a ilha do dia anterior
a lembrança do sofá vermelho. Na casa da avó tinha a melhor comida de domingo, a melhor rede pra balançar e o colo mais quente.
28 de março de 2012
um passeio ( da série toda fotografia é uma ilha ou a ilha do dia anterior)
a ilha do dia anterior (ou toda fotografia é uma ilha) diz respeito a uma série de lembranças levantadas por associações diretas que crio a partir de fotografias em slides ou negativos que venho colecionando. São arquivos comprados em feiras ou achados e coletados no lixo das ruas.
27 de março de 2012
toda fotografia é uma ilha
tenho achado muitos slides fotográficos no lixo pelas ruas. Acabo recolhendo, pois é um material que muito me atrai. Os antigos arquivos fotográficos em slides e negativos cada vez mais parecem estar fadados ao esquecimento. A maioria de nós não sabe armazenar e conservar estes arquivos, que sujeitos a ação da umidade e consequentemente de fungos, vão esmaecendo em gavetas e caixas esquecidas no fundo de armários, até possivelmente chegarem ao lixo. Em contrapartida, muitos arquivos digitais são abandonados em alguma pasta no computador, em virtude do oceano infinito e ilimitado de novas imagens. Náufraga, uma fotografia começa a ser ilha no momento em que o seu recorte a isola do resto do mundo, e continua sendo ilha à medida em que está cercada por possíveis elos de memória, mas que só farão sentido a partir da descoberta de um olhar. Redescobrir essas imagens não é uma tarefa simples, exige tempo e apego.
18 de março de 2012
A ilha
Cheguei à ilha ao amanhecer. Uma ilha como outra qualquer. Praia deserta, coqueiros, mata fechada, uma montanha ao fundo. Tudo como um misterioso penetrável de sensações. O som da mata, a floresta nativa, o barulho do que existe dentro e fora de mim. A visão de algo que eu apenas conheço quando estou em sonho. Misterio e medo. Adentro neste lugar ou saio de mim? Onde estou? Onde está a ilha? Dai eu penso nas ilhas da minha infância. Fantasia, piratas, tesouros e romances. Cheguei nesta ilha a nado, naufrago de mim. Saio?
29 de março de 2008
Imagem fotográfica
"a imagem fotográfica é dramática. Por seu silêncio, por sua imobilidade. (...) A fotografia é nosso exorcismo. A sociedade primitiva tinha suas máscaras, a sociedade burguesa seus espelhos, e nós temos nossas fotografias." Jean Baudrillard
8 de fevereiro de 2008
Sobre fotografia, Susan Sontag
"A humanidade permanece, de forma impenitente, na caverna de Platão, ainda se regozijando, segundo seu costume ancestral, com meras imagens da verdade..."
"Essa insaciabilidade do olho que fotografa altera as condições do confinamento na caverna: o nosso mundo. Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas idéias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar. Constituem uma gramática e, mais importante ainda, uma ética do ver."
"Essa insaciabilidade do olho que fotografa altera as condições do confinamento na caverna: o nosso mundo. Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas idéias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar. Constituem uma gramática e, mais importante ainda, uma ética do ver."
Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e o domínio das idéias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das idéias e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo ilusório das coisas sensíveis, no grau da apreensão de imagens (eikasia), as quais são mutáveis, corruptiveis, não são funcionais e, por isso, não são objetos de conhecimento.













